A modernização tecnológica do Judiciário, frequentemente
celebrada como progresso, carrega um lado oculto preocupante: o de uma
precarização silenciosa do serviço público. Por trás da promessa de eficiência
por meio da Inteligência Artificial, observa-se o gradual esvaziamento das
funções dos servidores, a terceirização de atividades essenciais a empresas
privadas e a criação de uma barreira digital que exclui parte significativa da
população do acesso à Justiça.
Para os próprios servidores, a implementação dessas
tecnologias muitas vezes significa não facilitação, mas sim aumento de
controle, vigilância digital e uma pressão por produtividade que desconsidera a
qualidade do trabalho humano. O risco concreto é que a automação abra caminho
para o congelamento de concursos, o enfraquecimento das carreiras e a
desumanização do ambiente de trabalho, transformando um serviço público
essencial em um processo gerido por algoritmos e métricas.
Para o cidadão, a digitalização acelerada e sem mediação
aprofunda as desigualdades. A falta de inclusão digital efetiva, aliada à
redução do atendimento humano, transforma o Judiciário em um labirinto virtual
inacessível para idosos, pessoas de baixa renda e aqueles com menor letramento
digital. Dessa forma, a ferramenta que deveria universalizar o acesso acaba por
criar uma nova forma de exclusão, afastando justamente os que mais dependem da
proteção estatal.
Diante deste cenário, torna-se urgente reivindicar uma
governança ética e transparente sobre o uso de tecnologia no serviço público. É
fundamental defender que a inovação sirva para aprimorar, e não para
substituir, o trabalho humano, garantindo o atendimento híbrido e a inclusão
digital. A luta central é assegurar que o Judiciário permaneça um serviço
público democrático e acessível, onde a tecnologia seja uma ferramenta a
serviço da cidadania, e não um instrumento de desmonte e exclusão.

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